Sebastião Salgado: patrimônio do Espírito Santo ou de Minas Gerais?

Fosse eu mais jovem, iria a Paris, num galope, a fim de assistir à posse de Sebastião Salgado numa das cadeiras da Academia de Belas Artes da França. Se o corpo não vai, a alma está lá para vibrar com este momento de glória do Brasil e, em particular, do Espírito Santo.

Sebastão Salgado nasceu em Aimorés, quase no limite entre Minas e Espírito Santo. Passou sua juventude em Vitória. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Nós, capixabas, consideramos Sebastião Salgado patrimônio nosso. Se Minas tentar nos retirar esta glória, teremos outra questão de limites.

Há dois campos de exercício da arte totográfica: 1 – a fotografia pessoal ou familiar, que se restringe às pessoas abarcadas pelo acontecimento registrado, seja um batizado, um casamento, uma viagem ou outro evento personalíssimo; 2 – a fotografia jornalística, que se dirige a milhares ou milhões de pessoas. Como as notícias seriam insossas se as palavras não fossem acompanhadas por imagens! Em algumas situações, a imagem diz quase tudo e o texto é apenas um complemento da mensagem.

Sebastião Salgado foi reconhecido pelos grandes críticos da arte fotográfica como alguém que foi capaz de produzir fotos de mérito singular. Muitos especialistas consideram-no “primus inter pares”. Além de exímio artista, Salgado fez da fotografia instrumento de afirmação de valores humanistas e de denúncia de tudo aquilo que agride a dignidade humana: a) documentou fotograficamente a seca no Norte da África, num trabalho realizado em colaboração com a ONG “Médicos sem Fronteiras”; b) documentou, com a cooperação da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), o drama de crianças vitimadas pela fome, em várias partes do mundo; c) testemunhou, através da fotografia, os grandes flagelos que vitimam multidões empobrecidas: trabalhadores sem terra, migrantes, refugiados; d) produziu grandioso documentário sobre o desalojamento em massa de hordas de seres humanos.

Longe de cair em depressão ao concluir essas tarefas, Sebastião Salgado acenou para a esperança: “Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…”.

Salgado tinha consciência de que sua arte estava ligada à sua condição de brasileiro. Declarou numa entrevista: “Venho de um país subdesenvolvido onde os problemas sociais são muito intensos. E assim torna-se inevitável que as minhas fotos reflitam isso. Creio que exista uma forma latino-americana de ver o mundo”.

O autor é juiz de Direito aposentado e escritor

Autor: João Batista Herkenhoff / Gazeta Online

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