Pescadores de Regência serão indenizados por lama no Rio Doce

Quase dois anos após o maior desastre socioambiental do Brasil no setor de mineração, em Mariana, Minas Gerais, só agora cerca de 47 pescadores da Vila de Regência, em Linhares, ganharam esperança de recuperarem suas vidas: vão receber indenização por danos materiais em R$ 10 mil e outros RS 120 mil durante dois anos. A informação é do Presidente da Associação de Pescadores de Regência, Leônidas Carlos.

Segundo ele, em 26 de outubro – nove dias antes de a tragédia completar dois anos – o acordo foi fechado com a Fundação Renova, responsável pelas ações de reparação de danos ambientais, sociais e econômicos da tragédia. No entanto, o que deveria começar a ser pago já no dia 27 de outubro foi adiado para 30.

O Instituto Últimos Refúgios é uma instituição sem fins lucrativos, que visa à sensibilização ambiental através de imagens. "As pessoas só protegem o que sabem que existe!"
O Instituto Últimos Refúgios é uma instituição sem fins lucrativos, que visa à sensibilização ambiental através de imagens. “As pessoas só protegem o que sabem que existe!”

“Muitos pescadores ainda não receberam nada. Isso vai ser pago no cartão para daqui a dois anos fecharmos outros acordo. Deram prazo que 4 ou 5 pescadores iriam até lá hoje, mas já mudaram pra semana que vem. Pra nós não foi avanço ainda porque ainda não nos pagaram. Metade recebeu e a outra não”.

Mesmo assim, o pescador de 70 anos, que criou 10 filhos com a atividade, não vê perspectiva de futuro. Nem mesmo daqui há 20 anos. O barco dele está encostado desde a tragédia. Questionado sobre a água, ele diz que nem mesmo vai a praia. “Eles ainda não fizeram análise sobre a qualidade da água, para saber se podemos beber e comer ou vender os peixes. O pescador vai ficar sofrendo muito tempo. Tinha uma renda de R$ 5 mil todo mês. Hoje vivo de um cartão de R$ 1200. Minha vida sempre foi essa”.

O pescador comentou ainda que regência está da mesma forma que há dois anos atrás, quando a lama chegou. Não houve ação de recuperação da biodiversidade da bacia hidrográfica do Rio Doce nem retorno sobre a análise dos peixes, que encheram três caminhões.

“Colocaram um caminhão pipa que abastece Regência. Mas os outros projetos, como uma rampa de subida e descida e uma horta comunitária não fizeram. Nem a limpeza do rio preto (afluente que interliga as lagoas da vila e o rio Comboios ao rio Doce) pra dar serviços aos pescadores. Eles dizem que não podem fazer. Estamos de pé e mão quebrado”.

Ecologicamente não é mais possível plantar e colher. Segundo o pescador, é difícil até mês utilizar uma escavadeira no chão. “Morreu tudo. Tínhamos uma ilha com cacau e alecrim morreu. Tinha uma planta que era boa para os rins, mas tudo morreu”.

Tragédia Rio Doce 1Realidade que piora
Já se passaram dois anos, mas para o presidente da Associação de Pescadores de Povoação  (APAP), Simião Barbosa dos Santos, 73, o quadro se agrava cada vez mais. Da proibição de pescar a renda de R$ 1300 (acrescida em 20% para quem tem dependentes), tudo mudou. “Isso não é tudo. Perdemos nosso meio ambiente, natureza, animais, o Rio Doce. Aparece doença no corpo das pessoas que tem ou não contato com a água. Os problemas estão aparecendo agora”.

Segundo ele, os pescadores de Povoação estão negociando uma proposta de repasse de ganhos e uma indenização por cinco anos, que ele não quer aceitar por não saber o que será dali pra frente. “Em Barra Nova o mangue está morrendo. Os animais e tudo que viva na água estão doentes”.

Ele explica que ecologicamente o rio está com três problemas: a contaminação pela lama; o assoreamento e a falta de condições para pesca, porque está seco. “Se vier uma enchente vai inundar toda a região ribeirinha e vai ser um problema sério. Mesmo que não possam dragar, que façam pelo menos um trecho nas áreas de pesca que dê para trabalhar. Porque aqui uns dias nem barco a remo vai entrar”.

O pescador conta que estão sendo feitas obras na cabeceira, mas são 600 km de Rio Doce. “Até chegar na foz eu já morri. A proposta de dragagem é pra eles pelo menos fazerem parceria com o Estado ou União para um pontapé inicial, para termos condições de pelo menos navegar. Na foz do rio doce tem muitas ilhotas e plantávamos coisas. Animais que bebiam água tiveram que sair, porque comendo capim sujo e bebendo a água perderam peso. Os peixes se contaminaram. Pessoas tem coceira no corpo vegetação. Foi desequilíbrio total”.

Disse ainda que o desastre representa 5% da lama. O restante ficou para atrás e a tendência é piorar, caso ela desça novamente. “É uma lama que não se desmancha. Vai contaminar tudo outra vez. Será por muitos anos. Já vai pegar o solo contaminado porque é uma nova remessa de lama em cima da que já está. Daqui a pouco vai estar tudo no fundo do rio. A lama endurece. Dá pra arrancar os pedaços, parece cerâmica”.

Quanto ao futuro, o pescador espera que os responsáveis desenvolvam uma atividade na comunidade que recupere o meio ambiente, fauna e flora. “Sugerimos uma criação de cardumes de peixe. Porque os contaminados não sabemos se vão reproduzir. É o que temos condições de recuperar”.

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