Mulheres cada vez mais armadas contra a violência no Espírito Santo

A sensação de insegurança está fazendo com que mulheres procurem meios de defesa pessoal, inclusive a tentativa de aquisição de armas de fogo, na Grande Vitória. A presença do sexo feminino nos clubes de tiro, por exemplo, subiu cerca de 40%, especialmente após a greve da Polícia Militar, em fevereiro deste ano.

 

A aposentada Josete Therezinha Penido, de 76 anos, é um exemplo da procura de mulheres por proteção. Ela conta que, como mora sozinha em uma residência, se sente insegura. “Eu não posso ficar à mercê da bandidagem, e idoso é um prato cheio. Então eu vi a necessidade de procurar uma arma”, ressaltou.

 

538 requerimentos

 

Foi o número de pedidos de posse de arma em 2017, somente nos quatro primeiros meses

 

Uma designer de 34 anos, que preferiu não se identificar, também começou a praticar o tiro, influenciada pela falta de segurança. Hoje, ela já incentiva outras mulheres a iniciarem. “Eu procurei, inicialmente, por questão de insegurança. Eu moro em casa, não tinha polícia e eu sozinha ia fazer o quê? No dia que eu comecei, entraram outras três mulheres comigo. Não me arrependo nem um pouco”, disse.

 

De acordo com o presidente do Clube de Tiro de Vila Velha (CTVV), Cláudio Videira Leandro, foi significativo o aumento de mulheres entre os frequentadores do local. “Com a sensação de insegurança, as pessoas perceberam a necessidade de ter a própria segurança. A mulher é mais visada pelos bandidos, por ser vista como mais frágil. Houve um aumento de 40% do ingresso de mulheres no clube”, afirmou.

 

Esse aumento também foi percebido pelo despachante de armas Rômulo Santos. Ele contou que desde o início do ano tem dado entrada em muitos pedidos de compra de armas feitos por mulheres. “A procura feminina pela arma de fogo subiu em torno de 40%. Recebemos, por mês, em torno de 15 a 20 pedidos de mulheres para posse de arma de fogo”, ressaltou.

 

Dados da Polícia Federal (PF) mostram que os pedidos de posse de arma em 2017, somente nos quatro primeiros meses, já chegavam quase à quantidade dos anos anteriores completos. Entre o dia 1º de janeiro e 12 de abril, foram 538 requerimentos registrados na PF. Enquanto isso, em 2016 e 2015, nos 12 meses, os números chegaram a 704 e 749, respectivamente. Ou seja, em três meses, o número de requerimentos foi 70% de todo o ano passado.

 

Porém, para ter uma arma legalizada, a pessoa precisa passar por uma série de avaliações e cumprir requisitos exigidos pelo órgão. Mesmo assim, não é garantido que, passando pelo processo, o registro da arma será liberado. “Você tem que ser maior de 25 anos, não ter antecedentes criminais, possuir residência fixa e comprovante de renda. Depois faz um laudo psicológico, um curso de tiro no calibre específico daquela arma que vai comprar. Após juntar as documentações, entra com o pedido na Polícia Federal e aguarda a decisão”, explicou Rômulo.

 

ENTREVISTA

 

Morar sozinha em uma casa, em Vila Velha, ser idosa e se sentir insegura foram os motivos que levaram a aposentada Josete Therezinha Penido, 76, a procurar um clube de tiro. Ela disse que pretende comprar uma arma após acabar os cursos.

 

Há quanto tempo e por qual motivo a senhora decidiu que queria aprender a atirar?

 

Eu moro sozinha, em uma casa, e ali tem uma bandidagem que age sempre. Eu ainda sou responsável pelo meu neto, que mora comigo desde 9 meses e hoje tem 14 anos. Eu não posso ficar à mercê. E atacar e idoso é um prato cheio. Então eu vi a necessidade de procurar uma arma. Frequento o Clube desde o dia 22 de julho. Agora eu sou sócia, quero comprar uma arma leve para ter em casa e quero ter o porte.

 

A senhora já teve arma antes?

 

Eu sou viúva de um médico e quando ele era vivo ele arranjou uma arma, mas ficava guardada. Um dia eu fui fazer uma limpeza no armário da minha casa, há pouco tempo, e percebi que a caixa dela estava leve. Eu nem sei quem pode ter roubado, mas fui fazer um boletim de ocorrência e pensei que deveria ter outra.

 

O que dizer sobre a insegurança de hoje?

 

A situação está muito complicada. A gente é cercado por bandidos por todos os lados. Bandidos da pesada. Eles são esclarecidos para fazer o mal. Quando eles são ignorantes, são covardes, mas não têm tanto esclarecimento para fazer a coisa da maneira planejada.

 

Antigamente o Brasil era melhor. O relacionamento humano, atitudes e consciência do honesto e do dever eram diferentes. Hoje a gente nota um esvaziamento da pessoa para a ganância, o egoísmo. Hoje a gente tem que saber se defender, porque a segurança está faltando em todos os níveis e eu não me entrego facilmente.

 

“A BUSCA DE PROTEÇÃO COM ARMA É UM MITO”, DIZ TENENTE-CORONEL

 

O tenente-coronel da PM Marcelo Corrêa Muniz que é diretor de Comunicação da PM
O tenente-coronel da PM Marcelo Corrêa Muniz que é diretor de Comunicação da PM
Foto: Reprodução

O tenente-coronel da Polícia Militar Marcelo Corrêa Muniz é contra a aquisição de armas de fogo, com o objetivo de proteção pessoal, seja por homens ou mulheres. O oficial da corporação acredita que quem adquire armamentos com esse pensamento, só faz aumentar os riscos que corre.

 

“A busca de proteção a partir de uma arma de fogo é um mito. Ninguém fica mais seguro porque dispõe de um meio letal. Armas de fogo, mesmo que adquiridas legalmente, geram muito mais responsabilidades do que segurança. Submete as pessoas a risco e exposição desnecessárias, além de aumentar a possibilidade de acidentes indesejáveis e letais”, afirmou Muniz, que é diretor de Comunicação da Polícia Militar.

 

Ainda para o tenente-coronel, a greve da PM foi um momento de crise e comprar uma arma por conta da insegurança causada pelo período é uma decisão equivocada.

 

“Crises ou momentos de dificuldades não devem gerar decisões que possam comprometer sua segurança individual ou de sua família. Você poderá se arrepender irremediavelmente de ter adquirido uma arma de fogo, principalmente se for usada contra você mesmo ou contra alguém de sua família. Os exemplos não são incomuns”, ressaltou.

 

Muniz ainda destacou que a PM vem trabalhando para melhorar a segurança para os capixabas, mas isso não vai acontecer de um dia para o outro.

 

“A PM se solidariza com quem já foi vítima de um crime. Nos entristecemos e sofremos com os cidadãos e trabalhamos muito para buscar um clima de mais harmonia e menos violência. Ninguém viaja em um avião que sabe que está com a turbina com defeito, mesmo que a outra esteja em perfeitas condições. Comprar arma de fogo como uma solução para segurança pessoal é viajar em um avião sem asas”, concluiu.

 

LUTA DE DEFESA PESSOAL TAMBÉM GANHA MAIS ADEPTAS

 

Suzana, Tatiane e Mila treinam a luta
Suzana, Tatiane e Mila treinam a luta
Foto: Marcelo Prest

Outra vertente da defesa pessoal em que foi constatado o aumento da presença de mulheres é o Krav Magá. A arte é ensinada em algumas academias da Grande Vitória e tem ganhado cada vez mais adeptas.

 

De acordo com o professor Marcelo Farineli, o excesso de violência nas ruas tem feito com que a procura pelas aulas cresça a cada dia.

 

“Tem aumentado a procura de mulheres pelo curso. Na prática, a gente vê que a violência está aflorada. Isso vai favorecer as pessoas a procurarem estar mais preparadas. E, no caso das mulheres, os agressor acaba achando mais fácil fazer algo”, afirmou.

 

A luta, criada na década de 40 em Israel, é única luta reconhecida mundialmente como arte de defesa pessoal e não como arte marcial. Ainda de acordo com Farineli, o objetivo do Krav Magá não é somente a proteção física, mas também aflorar as percepções do meio.

 

“As pessoas precisam andar mais atentas na rua. Não se pode andar distraído. Nas nossas aulas, frequentemente entramos com simulações de situações que podem acontecer na rua. Dificilmente um agressor chega do nada, a vítima é que não percebe a aproximação”, ressaltou.

 

Para a comerciante Tatiane Batista Ferreira, de 40 anos, o Krav Magá surgiu quase como uma terapia. Após passar por um sequestro relâmpago, ela diz que sentiu a necessidade de procurar uma forma de proteção. E foi na arte que ela reencontrou a segurança.

 

“Eu buscava alguma modalidade que eu pudesse usar para me defender. O Krav Magá trabalha com pontos sensíveis e qualquer um pode praticar. Eu consegui superar o meu trauma”, contou.

 

A recepcionista Suzana de Oliveira, 47 anos, também é praticante da arte e diz que a principal mudança percebida após iniciar foi na percepção do ambiente.

 

“Infelizmente, hoje, com o grau de atenção que tenho, percebo que muitas pessoas não têm essa percepção. Demoram a entrar no carro, andam com celular na rua, e acho que todos deveriam ter essa noção. O grau de medo é muito grande. Não que eu viva pensando em violência 24 horas, mas estou sempre atenta”, concluiu.

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