Defesa contra vírus zika vira desafio em Belo Horizonte

O protocolo de Atenção à Saúde para Microcefalia lançado esta semana pelo Ministério da Saúde fará pouca diferença em Belo Horizonte. Nenhum esquema especial para atendimento a gestantes está sendo montado, nem tampouco para a realização de testes de gravidez. Isso porque, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, todas as medidas já são adotadas pelo município. Além disso, não houve aumento na demanda e – pelo menos por enquanto – não há registros de que o vírus zika, relacionado à ocorrência de microcefalia em bebês, esteja circulando na cidade. O que há, segundo a secretaria, são casos isolados. Já a Secretaria de Estado de Saúde disse que ainda vai analisar o protocolo.O grande problema, no entanto, é com relação à realização de testes que detectem a presença do vírus.

Segundo o médico infectologista da gerência de assistência da Secretaria Municipal de Saúde, Alexandre Moura, é muito limitado o número de testes disponibilizados pelo Ministério da Saúde, por isso, atualmente os exames só são realizados em pessoas que tenham histórico de viagem. Do contrário, diante da apresentação dos sintomas do zika, que são similares aos da dengue, o paciente é tratado como se estivesse com dengue. “Por enquanto, se a pessoa viajou para um local que tem o zika circulando e apresenta, principalmente, manchas no corpo, o exame é realizado. Se a pessoa não viajou, segue como dengue”, afirma.

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Segundo ele, o resultado do teste demora de 15 a 20 dias e, enquanto isso, as ações já são adotadas tanto no que diz respeito ao tratamento, que não difere da dengue, com necessidade de bastante hidratação, como no combate ao vetor, com a intensificação de combate ao mosquito na região onde a pessoa mora ou possivelmente foi picada.

No caso de grávidas que por ventura possam ter contraído o vírus, também não há o que fazer, infelizmente, do ponto de vista de se evitar a malformação na criança. O que pode ser feitos são ultrassons para acusar a probabilidade de o bebê ter desenvolvido a microcefalia.

VACINA NATURAL Ao contrário do que muitos temem, a mulher que tenha contraído o vírus zika, passado o tempo de contágio (cerca de sete dias), pode engravidar, sem risco para o bebê. Aliás, essa seria a melhor das situações já que depois de ter o zika, a pessoa se torna imune a ele. Ou seja, a doença serve como uma vacina natural. O problema, novamente, esbarra nos testes de detecção do vírus. Segundo Alexandre Moura, não existem ainda testes que comprovem, após passado o período de incubação, que a pessoa tenha tido o vírus. “De fato, funciona como uma vacina. O problema é comprovar se a pessoa já teve mesmo o zika. Pode-se achar que foi e ter sido dengue”, observa.

Produto já está em falta em BH

Nas ruas de Belo Horizonte, a busca pelos repelentes do mosquito Aedes aegypti zerou os estoques das farmácias e está deixando grávidas preocupadas, por conta da relação já confirmada pelo Ministério da Saúde entre o zika vírus e a microcefalia. Em uma drogaria na Rua Domingos Vieira, na região hospitalar da capital, o movimento de grávidas é constante, à procura pelo repelente Exposis, produto feito com a substância icaridina, cujo tempo de ação chega a 10 horas e é o mais indicado pelos médicos. “Temos seis fornecedores e todos estão zerados. Não há nenhuma previsão de reposição, já que o aumento no consumo foi exponencial. É o mais indicado porque as pessoas usam menos e, consequentemente, se expõem menos ao risco de intoxicação”, afirma o farmacêutico Eduardo Luiz Leopoldino, enquanto mostra outra opção de repelente à contadora Daniela Maia Ribeiro, de 35 anos, grávida de seis meses, e ao marido de Daniela, o economista Wanderson de Castro Pinto, 38.

O casal é de Pará de Minas, na Região Central do estado, e está muito preocupado com a circulação do Aedes aegypti, principalmente porque a cidade lidera o ranking dos municípios do Sudeste do Brasil com maior índice de infestação do mosquito (6,9%). Isso significa que a cada 100 imóveis, 6,9 têm criatórios do inseto, o que configura situação de risco de surto de dengue, febre chikungunya e zika vírus, as três doenças transmitidas por ele. Eles conseguiram um frasco do repelente mais indicado na cidade, mas era o último da farmácia. Em BH, não encontraram e acabaram levando uma outra opção, baseada na substância Deet, cujo tempo de ação varia entre duas e quatro horas no corpo.

“A gente ficou muito preocupado por conta da divulgação do surto de microcefalia e da relação com o zika vírus. Principalmente porque, em Pará de Minas, não estamos vendo muita mobilização para combater o mosquito. O jeito é levar esse para não ficar completamente desprotegida”, afirma Daniela. Wanderson lembra que a cidade viveu muitos problemas de falta de água, o que motivou a população a estocar grandes quantidades. “Isso pode ter causado o aumento da quantidade de mosquitos”, diz Wanderson. Já a médica Ana Carolina Duarte Couto, de 35, que pretende ficar grávida em breve, preferiu não levar a opção com tempo de proteção menor. Ela procurava o primeiro repelente. “Não estou encontrando em lugar nenhum. Eu consegui um frasco, mas ele vai acabar em algum momento e vou precisar de outro. Meu objetivo é passar toda a gravidez protegida”, afirma.

Enquanto a maioria das grávidas se preocupa com a possibilidade de serem picadas pelo Aedes aegypti e os bebês desenvolverem microcefalia, há exemplos em Belo Horizonte de mulheres que não acreditam nessa possibilidade. A manicure e cabeleireira Emilene Rodrigues de Souza, 38, diz que o surto ococrreu no Nordeste. “Em Belo Horizonte já houve caso descartado e o meu médico também não me deu nenhuma orientação nesse sentido. Estou com quatro meses e não acho que vou ter nenhum problema, até porque tenho visto que o risco maior se dá nas grávidas que ainda não chegaram aos três meses”, afirma.

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“O risco real e que deve ser combatido é o mosquito”, alerta médico

Alexandre Moura, médico infectologista da Secretaria Municipal de Saúde

Existem outras formas de se contrair o vírus zika?

A questão é o mosquito Aedes aegypti. Existem raríssimos casos de transmissão por transfusão de sangue ou relação sexual. Mas isso é o que chamamos de risco teórico. O risco real e que deve ser combatido é o mosquito.

Qual o risco de aumento de circulação do vírus durante as festas de fim de ano?

No verão, normalmente o vetor é mais abundante. O risco sobe em função da maior circulação do Aedes. Ele sempre esteve em BH. Mas o risco do zika não tem como prever. É preciso que a pessoa chegue de viagem, seja picada e isso se sustente. Então se for o caso de uma epidemia, isso será lá para fevereiro ou março.

Além do combate ao mosquito, há outros cuidados?

Basicamente, evitar locais onde estão sendo registrados mais casos. Mas a solução é mesmo buscar eliminar os focos do mosquito e evitar o contato com o inseto até por causa da dengue. Não podemos nos esquecer da dengue. Em BH, não há locais específicos até porque esse mosquito é muito domiciliado. Então não adianta dizer para evitar parques, por exemplo. Pois ele está dentro das casas. E não tem uma região a ser evitada. O mosquito está espalhado pela cidade toda. Em BH, o risco maior é de dengue e mais de 80% dos focos estão dentro das casas. Outro cuidado é usar roupas que deixem menos áreas do corpo expostas e considerar o uso do repelente. Mesmo assim, não é completamente eficaz, pois pode deixar uma ou outra área do corpo exposta.

Em BH já estão faltando repelentes nas farmácias. É de conhecimento da secretaria?

Já ouvi comentários sim. O governo federal, inclusive, está com planos de reforçar a produção na fábrica do Exército. Mas é uma questão de oferta e demanda.

Mosquiteiros resolvem?

Esse é um mosquito de hábitos mais diurnos. Ele não pica à noite. Normalmente atua até o crepúsculo. Por isso também o uso de mosquiteiros à noite é pouco eficaz.

Dizem que também é um mosquito que não vou alto. Isso procede?

Sim. Por isso pica mais as pernas. Ele não sobe voando a um apartamento. Mas há o risco de subir de elevador.

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